Revoadas no Pantanal, 2009. Vendido
Ambiente interativo de apoio subsidiário, de contato permanente e enriquecimento de encontros do educador, no magistério e no âmbito das artes.
Pais e educadores lidam hoje com isso o tempo todo, quando no desejo de educar bem a consciência dos jovens, assistem perplexos os seus esforços indo abaixo e suas palavras caindo no vazio, diante de uma única cena de TV, por exemplo. Programas que em outros países já foram banidos das grades de apresentação, devido à comprovada má influência que exercem, aqui no Brasil, reinam como líderes absolutos no horário nobre. Com certeza, eles resultam nos comentários e assuntos que vigoram na maioria das conversas de jovens e adolescentes, nas salas de aula e nos recreios escolares desse imenso país. É o que na teoria da comunicação chamamos de “intertextualidade”, onde o público receptor continua construindo outros “textos”, através da tessitura de comentários que são feitos a partir de um “texto” original, ou seja, a partir daquele transmitido pela fonte emissora.
Escreva três “bês” maiúsculos no quadro e ao redor deles coloque palavras, perguntando aos próprios alunos quais os valores que estão ali implícitos e encontraremos: falsidade, ambição, pornografia, sem-vergonhice, ganância, comércio, interesse, fama, intriga, futilidade, exibicionismo, fofoca, entre outras coisas... Mesmo assim, alguns haverão de afirmar: “mas isso tudo é muito bom e eu adoro...” Pois é a fala da mais absoluta sinceridade: “o programa possui todos os ingredientes dos quais nós aprendemos a gostar”. E pelo visto não vai adiantar que alguns poucos descontentes expressem suas críticas, pois o apresentador, que personifica a mentalidade reinante, irá continuar chamando de “heróis” todos aqueles que se submetem a esse jogo milionário.
Não seria mais conveniente chamar de heroína aquela professorinha do interior do sertão que se desdobra, ganhando uma mixaria para fazer chegar aos meninos de nariz escorrendo e às meninas de chinelo de dedo, a instrução e os valores da cidadania? Ou não seria o jovem universitário, assassinado por engano, filho de mãe coletora de lixo, o verdadeiro herói dessa história real tão controvertida? No entanto, nessa desleal inversão de valores, são considerados heróis os que nem sequer sabem conjugar o verbo “trabalhar”, pois esperam entre festinhas e edredons e juntamente com um público anestesiado em rede nacional, serem os contemplados por suas tramas de astúcias e espertezas. E que se dane o resto... Como dizia Ariano Suassuna, numa palestra proferida anos atrás numa Universidade, sobre o empobrecimento da cultura nacional: “se eles radicalizam de lá, a gente tem de radicalizar de cá...”
Não é nada agradável o discurso demagógico e moralizante. Nem mesmo aquele que vem sob a capa da mais pura religiosidade. Seria mesmo muito melhor se falássemos só das flores, mas convenhamos, andam atravessando os limites e se não gritarmos, eles não terão mais confins. O documento da Campanha da Fraternidade Ecumênica exprime a consciência de que o esforço de construção deste mundo alternativo pode ser considerado, em primeiro lugar, um ato de contracultura, no sentido da contraposição a uma forma de entender a vida humana e a atividade econômica, marcadas por uma cultura "do enriquecimento com exploração, da acumulação que provoca a carência de muitas pessoas e do consumismo egoísta e materialista que coloca em risco a vida na Terra". Trata-se, assim, de uma reação à cultura do Eu, do egoísmo, do individualismo como valores fundantes de nossa configuração societária.
O referido documento nos convida também, a avaliar a possibilidade e a nos engajar na construção da organização das relações dos seres humanos entre si e de suas relações com a natureza fundada em outras balizas: a solidariedade "que faz da humanidade uma família onde todos se protegem mutuamente" o que implica fundamentalmente a mudança do modelo de vida social vigente. O capitalismo transformou a competição no único modo de relação econômica. Subjacente a esta postura, está uma concepção do ser humano que se entende basicamente como indivíduo, de tal modo que o sentido das ações do ser humano no mundo é a busca de satisfação do interesse próprio de cada um. O bem comum se atinge na medida em que se respeita o automatismo dos mecanismos de mercado e das relações competitivas como instrumentos necessários à busca do lucro máximo. Nesta configuração da vida coletiva, a liberdade deste indivíduo absoluto, significa a negação e a indiferença frente à individualidade do outro, o que Margareth Tatcher exprimiu com plena clareza com sua afirmação: "A sociedade não existe, a única realidade é o indivíduo".
O educador Antônio Barreto, um dos maiores cordelistas da Bahia, expressou assim sua indignação:
Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.
Título: Aves no pantanal Técnica: òleo sobre tela Propriedade: Marcondes Ximenes Ano: 2009
Título: "Mama África" Tamanho: 1.00x80 Técnica: Mista Ano: 2009 - À venda
Lá se foi mais um. Dizem que o ano passou muito rápido. Ou não seria a dinâmica desenfreada desses tempos cibernéticos que fazem aumentar por demais essa nossa percepção? Mas não adianta mesmo: “o novo sempre vem”... e o velho, às vezes cai. Enfim, terminar o ano assistindo Avatar na telona foi uma ótima pedida. Em 3D então, uma maravilha! Eu diria uma glória para o cinema contemporâneo. Ficou mesmo aquela sensação de ter sido uma das melhores fitas “jamais vista na história desse país”, para usar a expressão de um ilustre personagem que também ganhou destaque na arte cinematográfica no ano que passou.
É claro que para produzir todo aquele entrelace de efeitos reais e virtuais, coube ao seu diretor James Cameron, esperar o tempo oportuno, o avanço da tecnologia adequada e o amealhar dos não poucos 500 milhões de dólares! Não pretendo reproduzir a sinopse do filme. Tudo é facilmente acessível na internet. Aliás, é interessante notar como a rede vem se tornando uma espécie de ante-sala, ou mesmo, fórum de discussão das significativas peças da indústria do audiovisual. Bem mais fácil do que tentar organizar um cineclube em nossa cidade, diga-se de passagem... É lá que a gente, ou se prepara, ou se aprofunda sobre o que nos interessou mais, deparando-nos com os outros que fizeram experiência semelhante a nossa, transformados agora, de mero público em ardorosos fãs.
Depois de nos transportar desse, para o imaginário mundo de Pandora, identificamo-nos com o ex-fuzileiro Jake Sully e vamos com ele filme a dentro. Acontece que ele, como a maioria dos comuns mortais, traz a marca de uma deficiência. A dele é resultante de outras batalhas que participou e que lesou-lhe as pernas, o que faz dele uma espécie de herói contraditório e paradigmático. Uma evocação a outros personagens mutilados pela guerra e pelo belicismo norteamericano, vistos já em outros filmes, lembra-se? Renascido em sua forma Avatar (palavra que dá a idéia de transformação), quem antes estava preso a uma cadeira de rodas, recebe um novo corpo – hibrido entre o humano desproporcional e o felino extremamente hábil. Ah! Prá que melhor?! Esse outro mundo é muito superior, ainda mais quando entra em cena a figura do feminino sensível: paraíso total!
Somos como ele, inebriados pelas belezas de um exótico território, em tudo ao nosso assemelhado, mas extremamente muito mais encantado. Como encantados também são esses seres chamados Na’vi , profundamente espiritualizados, visto que rezam e cantam, vivendo em perfeita sintonia com a natureza e comunitariamente bem dispostos, a exemplo dos tribais povos, exterminados pelas antigas armas e ideologias de conquista: os Sioux americanos, os Astecas dos Andes e os Tupis brasileiros.
Como ocorreu no passado e ainda hoje persiste, esse cenário de paz e harmonia é abalado pelas potentes armas de terror e destruição que irrompem em nome da conquista e da ganância humana, detonando essa “cosmovisão”, impondo-lhe no lugar, uma visão caótica. Tudo isso é magnificamente representado pela derrubada da gigantesca árvore ao redor da qual tudo gravitava. Essa “árvore-alma” pode ser somente árvore... (e come pipoca), mas pode ser também “Amazônia”, “Rio São Francisco”, a construção da “Represa Belo Monte”, o uso indevido dos agrotóxicos, etc...
Já dizem alguns, tratar-se de um filme divisor de águas. Os recursos da digitação gráfica são magníficos, mas o que concorre, a meu ver, para a sua relevância é a essência do conteúdo e o poder da sua esplendorosa metáfora fílmica. Tudo bem, se você quiser ir ao cinema buscando somente diversão e entretenimento, coma pipoca e divirta-se! Mas, acho um despropósito não absorvermos dele algumas lições civilizatórias. Sobretudo, nesses tempos em que se considera o tremendo fracasso da conferência sobre o meio ambiente realizada em Copenhague. Parecia mais uma torre de Babel. Nada foi acordado e tudo foi postergado. As chances agora de uma nova tentativa de acordo se voltam para a Cidade do México nesse 2010. A ausência de um compromisso mínimo faz aumentar o número daqueles que já consideram o enfrentamento da causa climática, uma causa perdida.
“Uma balela, essa questão de aquecimento global!” – já estão dizendo algumas vozes incomodadas, ao perceberem que o ecológico tem a ver com mudanças econômicas. Será que essas resistências só cederão quando estiverem com o caldo de lama entrando pelas suas ventas?
É por essas e outras que é preciso interpretar a mitologia cinematográfica de Avatar. O filme nos possibilita extrair dele muitas outras reflexões, pois o seu simbolismo é quase inesgotável.